O mundo acordou mais justo, é o que dizem. Após suposta espera de muito tempo, a Globo exibiu, no capítulo final de sua novela das 21h, Amor À Vida, um beijo gay entre os personagens Félix e Nico. Vejam, eu não sou espectador da atração global, tenho orgulho em dizer que só vi poucos minutos da trama por estar fora de casa, sob os preceitos da convivência social, que me impediam de mudar o canal da televisão que exibia a dita cuja na noite de Natal. O pouquíssimo que vi, assim, de soslaio, era lastimável, sobretudo para quem, em outros tempos, teve a sorte de ver novelas como O Bem Amado, Pai Herói, Água Viva, Dancing Days, entre tantas outras.
A ideia não é ser saudosista, cada época tem sua produção cultural e o perrengue de assimilar que o mundo muda é nosso, que já está além dos trinta e tantos. O que não muda, desde os tempos da ditadura militar, é a condição de canal preponderante que a Globo possui. Não vejo vantagem em ler que atrações da TV Record, de propriedade do Bispo Edir Macedo, ganham pontos no Ibope a cada dia, surrupiando da emissora carioca sua condição inabalável. A descida rumo a patamares de qualidade é célere e acompanha um movimento social que parece ir na mesma direção, numa valorização de manifestações culturais de caráter mais simplório que há alguns anos. Ainda assim, em pleno 2014, a Globo desfruta de uma condição de instância do senso comum, ou seja, a partir do momento em que sua programação insere algum dado, aquilo passa a existir para uma significativa parcela da população.
Mesmo para pessoas com informação e conhecimento em níveis satisfatórios, ainda parece difícil mudar o canal da televisão. Não importa o número de opções disponíveis em canais pagos, o povo quer ver a novela, o Faustão, o Jornal Nacional, o terrível Big Brother e o Caldeirão do Huck, sem falar no inominável Esquenta. Todos são momentos em que a emissora manifesta sua posição política e social, uma verdadeira transferência de opinião, uma chancela para que assuntos possam entrar na ordem do dia. Não há problema se o público é ignorante e desconhece opções, mas se torna quase inaceitável quando formadores de opinião não conseguem se desvencilhar desse mecanismo de controle. Sim, gente, programação de TV é isso. Ou vocês acham que há gnomos do bem, lactobacilos vivos, ceramidas cor de rosa ou bichinhos Disney interessados apenas no seu entretenimento descompromissado?
Torço por um dia em que as questões sociais importantes não precisem deste carimbo global para existir. Utópico, mas é isso aí.

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