quinta-feira, 6 de março de 2014

Porque "Ela" Era O Melhor Filme Do Oscar 2014



Sempre que me arvoro a escrever algo sobre cinema, vem a sensação que é muito mais complexo analisar um filme que um disco, levando em conta a minha especialidade, entender álbuns, bandas, músicas. Um longa é algo mais amplo, capaz de comportar mais dados, talvez. Mesmo assim, tanto discos quanto filmes são obras de arte que podem mudar mundos, pessoas ou, no caso de Ela, tirar um retrato preciso de um tempo. O roteirista/diretor Spike Jonze conseguiu esse delicado instantâneo dessa nossa época estranha. É algo mais interessante que os outros filmes indicados/badalados desta época do ano e, a despeito do prêmio de Melhor Roteiro Original, merecia melhor sorte junto à Academia.

Segundo a ideia de Jonze, num futuro próximo - talvez em dez, vinte anos, se muito - a humanidade estará mais concentrada em comunicar-se virtualmente, tornando-se uma multidão de pessoas conectadas apenas com o que não podem/querem ver de perto. A impressão é que basta puxar um fio em algum lugar e toda essa engrenagem de comunicação à distância pode ruir em segundos, deixando todos desamparados e vagando em caminhos sem fim, talvez os mesmos que são trilhados, sem que saibamos, todos os dias. Quando vi Ela no cinema, me lembrei de Zygmunt Bauman e sua ideia dos "tempos líquidos", a ausência total de vínculos entre as pessoas, algo que, infelizmente, está a ponto de tornar-se realidade. O velho sociólogo polonês detectou essa tendência de liquefação dos laços entre pessoas, instituições e tudo mais, gerando uma sociedade nova, protegida por uma série de mecanismos como o medo extremado da violência, o politicamente correto e vários outros tiques sociais que impedem de avançar. No caso do filme, o "avanço" ocorreu em termos tecnológicos, deixando um vácuo emocional, que se traduz em vários aspectos ao longo da narrativa. Tons pasteis em contraste com alguma cor próxima do vermelho/carmim, expressões que variam entre o aturdido e o entristecido, paisagens urbanas assépticas e invasivas e, como queríamos demonstrar, uma solidão maior que a vida.

Joaquin Phoenix é Theodore, uma dessas pessoas sem face na multidão de solitários andantes, recém-separado e que ganha a vida como empregado de um site especializado em escrever cartas a pedido de pessoas que não têm coragem de enviá-las para outras - uma das grandes ironias do filme, que acaba passando batida em meio ao cenário familiar/assustador que se ergue. Theodore é um sujeito sensível e profundamente entristecido, que passa suas noites em frente a um videogame, até que decide comprar um novo sistema operacional para seu computador. A promessa do fabricante é proporcionar o mais próximo de uma experiência real entre máquina e usuário. Logo após a instalação, "entra em cena" Scarlett Johansson, no papel de Samantha, nome que o sistema operacional escolhe para si, com vistas a interagir com Theodore. Após alguns momentos iniciais de espanto com a capacidade do novo sistema, fica evidente que, num mundo em que as representações e simulações estão em toda parte, Samantha terá o conhecimento completo de Theodore em pouco tempo, além de poder moldar-se com vistas a agradá-lo mais e mais, de acordo com sua própria programação.

A presença de Samantha, além de organizar e "otimizar" a vida de Theodore, começa a preencher os diferentes tipos de vazio em seu cotidiano, desde uma mãe para cuidar dele, uma amiga para perguntar sobre coisas familiares e, com o passar do tempo, uma namorada para acordá-lo, procurá-lo durante o dia para saber como está e, ao fim de algum tempo, para demonstrar afeto, carinho e fazer sexo. A cena em que Theodore e Samantha "transam" expõe a fragilidade daquele relacionamento, algo que parece suficiente no início, mas que vai tornar-se um problema mais tarde, justamente pela impossibilidade de resolução. Talvez aí esteja a grande questão proposta ao público: é possível contentar-se com um relacionamento que permanece na esfera virtual? É possível viver algo verdadeiro se não há possibildade de um relacionamento "de carne e osso"? No caso do filme, ainda há o questionamento maior de ser ou não possível um relacionamento entre um ser humano e uma máquina, uma vez que Samantha, apesar da insinuante voz de Scarlett Johannson torná-la totalmente humana, é um sistema de computador, nada além. E, sendo assim, seria aceitável que um ser humano topasse viver algo sem a perspectiva de evolução para um novo terreno? Algo com uma máquina, que "não existe" como ele?

Ela é um filme romântico, distópico e muito bonito. Ninguém parece saber para onde vai, todos aparentam segurança, indiferença, autossuficiência mas, em sua esmagadora maioria, estão tremendamente solitários, amedrontados e sem o controle de suas vidas. Pode ser uma visão pessimista mas o filme é encantador justamente por expor esse traço humano de 2014, mesmo que faça uso de uma bela alegoria visual. Ela é bem feito, bem filmado, tem diálogos inteligentes e duas belas atuações. Joaquin Phoenix, ostentando um bigode que transita entre Magnum e Belchior, está soberbo e Scarlett Johansson faz de Samantha um dos seus mais brilhantes papéis. Claro que o fato do sistema pegar emprestada a voz de uma mulher tão bonita pode contribuir para uma suposta boa vontade do público para com a verossimilhança da trama mas, confesso, esquecemos o tempo todo que Scarlett está falando em nome de algo inanimado. Pobre Joaquim.




Nenhum comentário:

Postar um comentário