sexta-feira, 7 de março de 2014

O Acústico MTV do Lobão





Pretendo postar alguns velhos textos meus aqui na versão 2.0 do Blog do CEL. Este é sobre o Lobão à época do lançamento de seu Acústico MTV, início de 2007, bem antes do sujeito assumir sua parcela reaça.


A campanha publicitária para o Acústico MTV do Lobão traz o próprio, soltando a seguinte declaração: "Nunca vi alguém se dar bem depois de gravar um acústico". O anúncio se completa com a frase: Acústico MTV Lobão. Não tente entender, assista.  É justo, muito justo, é justíssimo.

Viva O Acústico Lobão! Sim, viva!  Por que haveríamos de reclamar? Finalmente Lobão está de volta ao lugar de onde nunca deveria ter saído. As paradas? – pergunta o fã do artista. Não, respondo eu. A música pop. Tudo bem que o sujeito nunca foi essa Coca-Cola toda na ourivesaria pop. Ele perde para gente como Lulu Santos, Guilherme Arantes, Herbert Vianna, Renato Russo, perde para quase todos da sua geração, mas, é bem melhor ouvir um Acústico MTV do Lobão que ler suas viagens sobre a injustiça das gravadoras para com ele.

Realmente alguém aqui acreditou que o Lobão entrou nessa seara de arauto da música independente nacional por altruísmo? Por ideologia? Por vocação? O velho João Luiz Woerdenbag tornou-se persona non grata nas gravadoras nacionais ao longo de sua carreira, apesar de ter emplacado discos de sucesso nos anos 80, como Vida Bandida (1987) e O Rock Errou (1985). Brigou com tudo e todos, se deu ao luxo de passar quatro anos estudando violão clássico (após o horroroso O Inferno É Fogo, de 1991) até encher o saco da BMG com o lançamento do mal resolvido Nostalgia da Modernidade, em 1995 e ser chutado de lá. Ele ainda tentaria lançar mais um disco, supostamente eletrônico e bem chato – Noite (1998) – com distribuição da Universal. Mais um fracasso. Até que foi defenestrado de uma vez por todas.

O que fez Lobão? Ao contrário do que poderíamos esperar de um músico com quase vinte anos de carreira (àquela época), Lobão não se acomodou. Lançou um disco nas bancas de jornal, A Vida É Doce, e depois lançou mais dois, sendo que o último, Canções Dentro da Noite Escura, veio encartado na sua revista, a OutraCoisa. Lobão, portanto, ingressou numa espécie de militância contra as gravadoras e seus mecanismos predatórios. Válido.

Deu a cara para bater quando exigiu que a tiragem dos discos viesse explicitada no código de barra para que ele não levasse prejuízo. Ah, os outros artistas também, claro. Válido.

Encartou discos independentes em sua revista, dando oportunidade de distribuição para artistas novos e fazendo a OutraCoisa aumentar o preço e assim vender mais. Válido de novo.

Mas de alguma forma sempre pareceu evidente que todo o estardalhaço que o sujeito criara vinha de um recalque, um choro de perdedor, um ranço qualquer. Algo como aquele menino pequeno que faz um desenho bonito e vai mostrar pros pais e estes não dão a mínima, estão ocupados fazendo outras coisas. A criança vai triste para o quarto e resolve pichar muros no dia seguinte. Claro que este exemplo é depreciativo e isso é intencional, porque, em última análise, Lobão está contradizendo tudo aquilo que adotou como discurso ao longo dos últimos anos. Algo muito importante, pois fez com que ele deixasse de lado suas canções para ser o elemento contestatório de plantão, uma espécie de jurado mau de programa de auditório. Só que supostamente esclarecido e independente. A indústria cultural adora esses tipos. São um prato cheio para criar frisson entre a massa e Lobão aceitou com prazer as aparições na MTV, no Raul Gil, os anúncios do governo federal concedidos em sua revista (lembrando sempre que um dos maiores desafetos dele é o Ministro da Cultura, Gilberto Gil, o responsável pela viabilização dos recursos que regem a Lei de Incentivo À Cultura, da qual Lobão se beneficiou), enfim, o Velho Lobo nunca saiu de cena e devia gargalhar de tudo isso em sua casa no Alto Leblon.

Nessa onda de ser independente, Lobão arrebanhou um monte de admiradores, seguidores, fãs. Não de seu trabalho como músico – que ele mesmo deixou relativamente de lado – mas de sua atitude. O que deve estar passando na cabeça dos independentes quando Lobão aparece num Acústico MTV, cantando praticamente apenas hits oitentistas e assinando contrato com a Sony/BMG – cujo presidente, Alexandre Schiavo, foi um dos seus maiores alvos – que prevê mais um disco inédito em 2008 e o relançamento de seus trabalhos nos anos 80? Não importa. Segundo Lobão, as gravadoras estão melhores agora e ele é o responsável por isso. É engraçado, admita.

Ele também diz que não se vendeu ao sistema, mas que está usando o sistema a seu favor. É mais engraçado ainda, vai.

E então, o Acústico do Lobão é legal? Claro que sim! É bem feito, produzido pelo Carlos Eduardo Miranda, mas traz o velho problema dos acústicos, a falta de punch. Aliás, o Miranda é uma escolha implicante, diz o Lobão. É outra pessoa que está diretamente – e dignamente – ligada às vielas independentes e que teria sido escolhido para incomodar. Coitado do Miranda, este sim, um sujeito que fez música independente, através do Selo Banguela Discos, numa época em que Lobão cantava “Jesus Não Tem Drogas No Pais Dos Caretas”, o único hit (mediano) de O Inferno É Fogo. Mas, segundo o slogan, “não tente entender”, apenas ouça.

Partindo do pressuposto que as pessoas são livres e acreditam no que querem, não podemos culpar o Lobão por seu surto indie. O cara foi bem sucedido, deu chance a algumas boas bandas e faturou seu troco mesmo posando de enfant terrible. Apenas precisamos dizer que sua fase independente (sic) terminou e merecidamente. Afinal de contas, todo artista indie almeja um bom contrato com uma gravadora major e Lobão nunca foi nada mais que um artista de gravadora, típico. Ele é daqueles que deveriam gravar um disco a cada dois anos, fazer covers, chamar convidados especiais, aparecer nos especiais de Roberto Carlos cantando “Detalhes”, enfim, coisas do gênero.

Lobão é um cara talhado para o mainstream. Sempre foi. Agora ele está em seu lugar. Isso é legal. A independência? Ora, que se dane. 


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