Pretendo postar alguns velhos textos meus aqui na versão 2.0 do Blog do CEL. Este é sobre o Lobão à época do lançamento de seu Acústico MTV, início de 2007, bem antes do sujeito assumir sua parcela reaça.
A campanha publicitária para o
Acústico MTV do Lobão traz o próprio, soltando a seguinte declaração: "Nunca
vi alguém se dar bem depois de gravar um acústico". O anúncio se completa
com a frase: Acústico MTV Lobão. Não tente entender, assista. É justo, muito justo, é justíssimo.
Viva O Acústico Lobão! Sim, viva!
Por que haveríamos de reclamar?
Finalmente Lobão está de volta ao lugar de onde nunca deveria ter saído. As
paradas? – pergunta o fã do artista. Não, respondo eu. A música pop. Tudo bem que o sujeito nunca foi
essa Coca-Cola toda na ourivesaria pop. Ele perde para gente como Lulu Santos,
Guilherme Arantes, Herbert Vianna, Renato Russo, perde para quase todos da sua
geração, mas, é bem melhor ouvir um Acústico MTV do Lobão que ler suas viagens
sobre a injustiça das gravadoras para com ele.
Realmente alguém aqui acreditou
que o Lobão entrou nessa seara de arauto da música independente nacional por
altruísmo? Por ideologia? Por vocação? O velho João Luiz Woerdenbag tornou-se persona
non grata nas gravadoras nacionais ao longo de sua carreira, apesar de ter
emplacado discos de sucesso nos anos 80, como Vida Bandida (1987) e O Rock Errou (1985). Brigou com tudo e todos, se deu ao luxo de passar quatro
anos estudando violão clássico (após o horroroso O Inferno É Fogo, de 1991) até
encher o saco da BMG com o lançamento do mal resolvido Nostalgia da
Modernidade, em 1995 e ser chutado de lá. Ele ainda tentaria lançar mais um
disco, supostamente eletrônico e bem chato – Noite (1998) – com distribuição da
Universal. Mais um fracasso. Até que foi defenestrado de uma vez por todas.
O que fez Lobão? Ao contrário do
que poderíamos esperar de um músico com quase vinte anos de carreira (àquela
época), Lobão não se acomodou. Lançou um disco nas bancas de jornal, A Vida É
Doce, e depois lançou mais dois, sendo que o último, Canções Dentro da Noite
Escura, veio encartado na sua revista, a OutraCoisa. Lobão, portanto, ingressou
numa espécie de militância contra as gravadoras e seus mecanismos predatórios.
Válido.
Deu a cara para bater quando
exigiu que a tiragem dos discos viesse explicitada no código de barra para que
ele não levasse prejuízo. Ah, os outros artistas também, claro. Válido.
Encartou discos independentes em
sua revista, dando oportunidade de distribuição para artistas novos e fazendo a
OutraCoisa aumentar o preço e assim vender mais. Válido de novo.
Mas de alguma forma sempre
pareceu evidente que todo o estardalhaço que o sujeito criara vinha de um
recalque, um choro de perdedor, um ranço qualquer. Algo como aquele menino
pequeno que faz um desenho bonito e vai mostrar pros pais e estes não dão a
mínima, estão ocupados fazendo outras coisas. A criança vai triste para o
quarto e resolve pichar muros no dia seguinte. Claro que este exemplo é
depreciativo e isso é intencional, porque, em última análise, Lobão está
contradizendo tudo aquilo que adotou como discurso ao longo dos últimos anos.
Algo muito importante, pois fez com que ele deixasse de lado suas canções para
ser o elemento contestatório de plantão, uma espécie de jurado mau de programa
de auditório. Só que supostamente esclarecido e independente. A indústria
cultural adora esses tipos. São um prato cheio para criar frisson entre a massa
e Lobão aceitou com prazer as aparições na MTV, no Raul Gil, os anúncios do
governo federal concedidos em sua revista (lembrando sempre que um dos maiores
desafetos dele é o Ministro da Cultura, Gilberto Gil, o responsável pela
viabilização dos recursos que regem a Lei de Incentivo À Cultura, da qual Lobão
se beneficiou), enfim, o Velho Lobo nunca saiu de cena e devia gargalhar de
tudo isso em sua casa no Alto Leblon.
Nessa onda de ser independente,
Lobão arrebanhou um monte de admiradores, seguidores, fãs. Não de seu trabalho
como músico – que ele mesmo deixou relativamente de lado – mas de sua atitude.
O que deve estar passando na cabeça dos independentes quando Lobão aparece num
Acústico MTV, cantando praticamente apenas hits oitentistas e assinando
contrato com a Sony/BMG – cujo presidente, Alexandre Schiavo, foi um dos seus
maiores alvos – que prevê mais um disco inédito em 2008 e o relançamento de
seus trabalhos nos anos 80? Não importa. Segundo Lobão, as gravadoras estão
melhores agora e ele é o responsável por isso. É engraçado, admita.
Ele também diz que não se vendeu
ao sistema, mas que está usando o sistema a seu favor. É mais engraçado ainda,
vai.
E então, o Acústico do Lobão é
legal? Claro que sim! É bem feito, produzido pelo Carlos Eduardo Miranda, mas
traz o velho problema dos acústicos, a falta de punch. Aliás, o Miranda é uma
escolha implicante, diz o Lobão. É outra pessoa que está diretamente – e
dignamente – ligada às vielas independentes e que teria sido escolhido para
incomodar. Coitado do Miranda, este sim, um sujeito que fez música independente,
através do Selo Banguela Discos, numa época em que Lobão cantava “Jesus Não Tem
Drogas No Pais Dos Caretas”, o único hit (mediano) de O Inferno É Fogo. Mas,
segundo o slogan, “não tente entender”, apenas ouça.
Partindo do pressuposto que as pessoas
são livres e acreditam no que querem, não podemos culpar o Lobão por seu surto
indie. O cara foi bem sucedido, deu chance a algumas boas bandas e faturou seu
troco mesmo posando de enfant terrible. Apenas precisamos dizer que sua fase
independente (sic) terminou e merecidamente. Afinal de contas, todo artista
indie almeja um bom contrato com uma gravadora major e Lobão nunca foi nada
mais que um artista de gravadora, típico. Ele é daqueles que deveriam gravar um
disco a cada dois anos, fazer covers, chamar convidados especiais, aparecer nos
especiais de Roberto Carlos cantando “Detalhes”, enfim, coisas do gênero.
Lobão é um cara talhado para o
mainstream. Sempre foi. Agora ele está em seu lugar. Isso é legal. A
independência? Ora, que se dane.

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